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Maria solidão

Ao som de: Na sua solidão – Cachorro Grande.

Agora Maria estava mais sozinha do que nunca. Perdera o pai fazia dois dias. E fazia dois dias que Maria não vivia. Estava atirada na sua cama em seu quarto escuro que nem pelas frestas da janela um pingo de claridade conseguia entrar. Mas na verdade, a claridade não conseguia entrar porque Maria estava de olhos fechados. Ela ficara quase 48 horas de olhos fechados. Um pouco mais da metade desse tempo, passou dormindo. Um pouco menos da metade desse tempo, passou sentindo. Não tentava explicar o que sentia nem lembrava do que acontecera antes de estar como estava.

Maria estava praticamente morta. Tinha urinado em seus lençóis que uma vez foram brancos, sentia um buraco no peito e só. A barriga podia roncar que ela continuava atenta ao buraco. Qualquer ronco ou ruído, latido ou miado, qualquer grito, não faria Maria voltar a viver.

Aconteceu que Maria se sentiu sufocada. De repente lhe pareceu que precisava respirar pelos olhos e então, os abriu. Ficou mais um tempo deitada, percebeu o cheiro do quarto, a umidez, os barulhos. Percebeu que fora dali estava claro, que fora das janelas o mundo existia. Esforçou-se para lembrar de algo e surpreendentemente ficou viva novamente. Era a mesma Maria de sempre.

O corpo doía quando se mexia, ela levantou assim que conseguiu se equilibrar e abriu as janelas do quarto. Deduziu que era bem cedo, pois os passarinhos cantavam e ela se lembrava de como eles acordavam animados. Foi devagar até a cozinha, serviu um copo de água, bebeu deste copo de água, enxeu a chaleira de água e botou esta para aquecer. Ela queria um café. Ligou o rádio. Tocava uma canção, se quiser saber quem sou, olhe para o céu azul (…), e o pai de Maria gostava desta canção. Apartir dali, Maria via no céu a imagem de seu pai.

maria

Foi para a sacada e perdeu-se no azul infinito. Quando lembrou-se da água na chaleira, voltou para a cozinha e viu que esta já tinha evaporado assim como a música já tinha acabado. Desligou o rádio e botou novamente água na chaleira para aquecer. Maria queria um café! Pegou o coador, o filtro e o café. Deixou tudo pronto para só derramar água e o líquido preto escorrer. Escolheu uma xícara (a do pai, que era preta). Alguns minutos depois, Maria estava novamente na sacada. Gosto amargo na boca e olhos mirando o céu. Agora ela via nuvens. Mas ainda com as nuvens, os raios solares chegavam até seu rosto. Ventava e Maria sentia falta. O que faria agora? Dormiu por dois dias. Avistaria o céu por dois dias, acharia outra razão para estar nos outros próximos dois dias e assim sucessivamente? Porque não se matar? Descobrir se existe um lugar onde possa se encontrar com quem mais ama. Mas não, isso não! Seu pai não se orgulharia e se não existisse lugar nenhum, Maria estaria eternamente sozinha. Não que isso significasse alguma coisa, porque viva ou não, o destino dela seria o mesmo: a solidão. Sozinha e viva ela tinha suas lembranças e essa era uma certeza que ela não sabe se teria caso morresse. O coração doeu. Se não lembrasse nada quando morta, seu pai também já não podia se lembrar dela. Era triste. Parou de pensar e foi para o quarto. Viu aqueles lençóis sujos e decidiu lavá-los. Botou água na máquina de lavar, largou os lençóis ali, acrescentou sabão e ligou o aparelho na tomada. Tinha se respingado toda e isso não era problema, desde pequena gostou de água. Ela e o pai lavavam as calçadas e ele fazia chuva com a mangueira para ela se molhar e sorrir. Montavam a piscina de plástico juntos e antes mesmo de estar cheia, Maria já estava molhada. Quando chovia o pai avisava a menina que estava entretida com alguma outra coisa, tá chovendo, Maria! tem um arco-íris, Maria! olha lá!, e ela ia correndo para a janela.

Foi fazer feijão. Era seu prato preferido e foi seu pai quem lhe ensinou a fazer um feijão tão gostoso. Escolhendo os grãos ela viu que tinham muitos que não prestavam, encheu as duas mãos com estes feijões ruins e foi para a sacada. Virou-se de costas para a rua, fechou os olhos, lembrou-se do sorriso mais bonito do pai, sorriu também, pediu em pensamentos para ele não se esquecer dela e jogou os feijões para trás. Caíram na cabeça de algum pedestre e Maria nem viu. Estava aliviada e feliz. Encheu a panela de água e grãos bons, ligou a boca do fogão e deixou ali aquecendo, cozinhando, amolecendo. Desligou a máquina de lavar, enxaguou os panos e centrifugou. Fronhas, lençol, sobre lençol, um por um. Depois estendeu todos no varal. Lembrou-se do feijão. O barulho da panela de pressão a assustava. Foi chegando devagar, desligou o fogo e saiu de perto. Voltou só meia hora depois porque o barulho já tinha parado. Se alguém visse, iria rir de Maria. Inclusive o pai dela. Ficou envergonhada, tirou a tampa da panela, amassou o feijão, colocou de volta no fogo, tampou e saiu de perto. O barulho estava voltando e ela tinha medo.

O sol estava sumindo antes do fim do dia. O céu agora estava repleto de nuvens, brancas e pretas. De temporal, Maria não gostava. E agora não teria o pai para ajudá-la a fechar as janelas. Queria que suas roupas secassem, mas teve que compreender. Maria compreendeu porque o pai dizia que era pra ela recolher a roupa caso chovesse e ele não estivesse. Compreendeu porque ele ia correndo recolher a roupa quando chovia e ele estava. É o trabalho de lavar, enxaguar, centrifugar, estender e querer que a roupa seque em vão, simplesmente porque Deus quis mandar água. Era por isso que ela tinha que recolher. Improvisou um varal dentro de casa, foi buscar o que lavou e a chuva começou. Pingos enormes caíam sob a testa de Maria. Não se sabe se foram os tamanhos dos pingos, mas naquele momento, Maria lembrou-se, talvez da lembrança mais antiga que tinha guardada, da primeira vez que viu cair gelo do céu. O pai pegou uma das pedras caídas na grama, lavou e deu para Maria chupar. Passaram-se dez minutos, Maria  já estava trancada dentro de casa com medo dos barulhos, ventos e panela de pressão juntos,  e de repente, o barulho de pedras caíndo no telhado. Correu para a janela. Botou a mão pra fora, pegou um gelinho,  ficou chupando e pensando. Seria seu pai quem estava jogando aquelas pedras do céu para mostrar que não tinha se esquecido dela? Acreditou nisso e viveu por mais dois anos. Acreditava que o pai mandava sinais. Pelas músicas que tocavam no rádio, pela cor do céu, pelo desenho da nuvem, pelo olhar de um desconhecido. Sozinha, acreditando que podia tomar banho de temporal porque era o pai que estava mandando temporal, foi que Maria morreu. Um raio na cabeça no instante em que a panela de pressão explodiu.

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